Sem entrar no mérito dos índices alarmantes de sobrepeso e obesidade em adultos e crianças no mundo todo, temos também que nos preocupar – e muito! – com o aumento da incidência de transtornos alimentares, como anorexia nervosa, bulimia nervosa, e outros. São os extremos da alimentação inadequada, que continuarão batendo seus recordes, principalmente se nós continuarmos insistindo no erro de buscar soluções nutricionais para questões culturais. Ou seja, o problema é muito mais embaixo.

A cultura atual da abundância, praticidade, rapidez, consumismo, e de querer levar vantagem em diversas situações, tem consequências não só na fatura do seu cartão de crédito, mas principalmente no seu carrinho de supermercado e na forma como você come. Eis alguns exemplos:

  • Quero comprar a maior quantidade possível pelo menor preço, então opto pela embalagem família, mesmo que eu seja sozinho. Ou ainda, se a lata de refrigerante custa quase o mesmo que uma garrafa de 2 litros, obviamente comprarei a que vem mais (e acabarei bebendo muito mais também).
  • Quero fazer valer o meu dinheiro, então me forço a repetir o prato várias vezes no rodízio de carnes, pizza ou japonês, mesmo que já esteja com a barriga estourando de tanto comer. Ou a limpar o prato no restaurante por quilo, mesmo já estando satisfeito, afinal já paguei pela comida.
  • Quero economizar tempo na cozinha, então coloco uma lasanha congelada no micro-ondas enquanto tomo banho, e ainda nem preciso lavar a louça. Ou faço um macarrão que ao invés de 10 minutos, fica pronto em 3.
  • Coloco na lancheira do meu filho uma caixinha estampada com um personagem qualquer, com um líquido colorido com aroma artificial de alguma fruta, e penso que estou oferecendo suco. Mas a embalagem diz que tem vitaminas! Afinal, dá muito trabalho fazer uma limonada.

Sejamos honestos: pelo menos 1 dos itens acima se encaixa com a maioria de nós. São exemplos simples de como alguns hábitos alimentares são tão arraigados e automáticos, que nem nos damos conta. Quando falo em hábitos alimentares, não me refiro exatamente à hábitos nutricionais. Em nenhum momento citei calorias, gorduras ou carboidratos, mas comportamentos que levam a consumo exagerado ou inadequado de nutrientes como consequência. Portanto, se insistirmos no tratamento das consequências dos comportamentos alimentares, continuaremos insistindo no erro, afinal o objetivo de qualquer tratamento é cortar o mal pela raiz, certo? É mais fácil colocar a culpa na indústria de alimentos, nas redes de fast food ou na propaganda, porém ninguém é obrigado a comprar nada, a consumir nada e a assistir a nenhum comercial se não quiser.

Porém, é difícil resistir às tentações das ofertas, pensar que nem sempre comer bem significa comer mais, e acreditar que é possível preparar uma refeição adequada sem gastar muito tempo. Por conta disso, somos bombardeados diariamente com produtos inovadores, receitas recauchutadas, alimentos milagrosos e dietas mirabolantes. Só que junto com a promessa da alimentação saudável, eles trazem embutidos a promessa de resolver o problema da sua vida e o entrave à sua felicidade: o seu peso. Esteja você abaixo ou acima do peso que deseja, muito provavelmente você não está satisfeito com ele. E isso sim a indústria de alimentos, cosméticos, medicamentos, cirurgia plástica, revistas, profissionais da saúde – inclusive os nutricionistas – já descobriram.

No mês de outubro farei uma série de posts sobre o Dia da Mundial da Alimentação e a sua relação com a cultura da abundância, praticidade e consumismo, e o que isso tem a ver com a sua insatisfação com o peso. E tentar convencê-lo de que isso não é um problema nutricional, e que portanto não adianta fazer dieta.